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Profissionais da saúde de SP querem que prefeito eleito priorize a rede básica, e não grandes obras na cidade (17/11/2020)

  • Em conversa com a Folha, eleitores das redes pública e privada de São Paulo criticaram as propostas dos candidatos para a área

    Fábio Zanini
    Thaiza Pauluze
    SÃO PAULO
    Homenageados com salvas de palmas nas janelas, mas vistos como persona non grata nos elevadores. Os profissionais da saúde definem 2020 como um tsunami que começa na angústia diante da doença desconhecida e vai até a irritação com as informações falsas e a politização da pandemia.

    A Folha conversou por videochamada na última terça-feira (10) com seis profissionais da área, de regiões periféricas e centrais da cidade de São Paulo.

    A cinco dias da eleição, fizeram uma defesa enfática do SUS, mas também de parcerias com o setor privado. Em uníssono, esperam que o próximo prefeito priorize a rede de atenção básica, não a construção de hospitais.
    A principal preocupação da oftalmologista Telma Gonzaga, 47, em março, era ter uma fila de pacientes infectados pela Covid-19 e ser preciso escolher quem viveria e quem morreria.

    Ela tem um consultório particular em Perdizes e trabalha no complexo hospitalar estadual Padre Bento, em Guarulhos, como orientadora de residentes. Lá, viu colegas sucumbirem à doença, outros tantos às crises de ansiedade, mas não precisou fazer a escolha de Sofia.

    Em compensação, sofreu com os olhares tortos. "No prédio do meu consultório, tinha gente que não subia comigo no elevador de jeito nenhum. Um parou, olhou e perguntou: ‘Você vai subir? Mas você não é médica?’."
    Se para a enfermeira Charlene Oliveira Trindade, 39, já era um desafio trabalhar em dois hospitais da periferia da zona leste da capital, quando chegou o coronavírus, “nós da linha de frente sofremos muito”.

    “A desinformação foi o que levou a várias mudanças consecutivas”, diz. Nos primeiros dias, por exemplo, a ordem era não usar máscara, para não causar pânico nos pacientes, conta. Depois, o item se tornou obrigatório, inclusive nas ruas.

    A estudante de saúde pública da USP Thais França da Rocha, 22, que trabalha no serviço de assistência especializada em HIV/Aids no Campo Limpo, zona sul, também ficou perdida no meio de “muita informação falsa, fake news. Mudaram até os protocolos sobre como a gente deveria se comunicar com os pacientes”.

    Intensivista e cardiologista da rede municipal há mais de 30 anos, Elcio Tarkieltaub, 57, definiu como “bastante angustiante” a rotina na UTI do hospital Mario Degni, no Rio Pequeno (zona oeste). Lá só havia seis leitos para casos graves. Depois, foram instalados mais oito.

    “Foi criado às pressas, adaptado, mas não faltou médico nem insumo. Em uma porta separada, só para síndrome gripal, a gente dava o diagnóstico e encaminhava para os hospitais de campanha ou o de Pirituba”, conta ele, que se infectou em maio, mas de forma assintomática.

    POLITIZAÇÃO
    Os profissionais afirmam que houve politização excessiva da crise de saúde.

    Para Aline Thomaz, 40, assessora da superintendência da rede de hospitais particulares São Camilo, o isolamento rígido foi necessário, e governos que negam a ciência colocam as pessoas em risco.

    “Foi positiva a quarentena, porque reduziu a taxa de transmissibilidade. Enquanto não tiver vacina, precisamos manter o isolamento, o distanciamento social, o uso de máscara o tempo todo e higienizar as mãos.”

    Mas, segue, “não houve o uso racional da informação, da ciência. Participamos da pesquisa que mostrou que a hidroxicloroquina não serviu pra nada”.

    A médica Rafaela Linck, 30, avalia que, independente do espectro político, “qualquer um que estivesse à frente [das decisões] sofreria para saber qual posição tomar. Era uma coisa muito nova”, diz.

    Ela conta que um vizinho, também médico, chegou a dizer que não usaria a cloroquina em seus pacientes, mesmo que tivesse efeito contra a Covid-19, porque era uma substância defendida pelo presidente.

    “Muita gente acreditava [na cloroquina] no começo, até nós ficamos na dúvida, antes de saírem resultados de pesquisas. Mas ele disse ‘eu não ia usar porque ele [o presidente] falou a favor’. São vidas, independente da posição política. Isso me deixou triste”, afirma.

    CADÊ AS PROPOSTAS?
    Outra unanimidade no grupo é a percepção de que a saúde é negligenciada nas campanhas municipais.

    Da extrema direita à extrema esquerda, diz Elcio, “todos dizem ter a solução para tudo, mas as propostas são extremamente parecidas para saúde, creche, emprego, habitação. Acho que a população já cansou, eu cansei. Por isso está desinteressada. Não há expectativa de quem quer que ganhe trazer mudança”.

    Para Thais, chamaram a atenção as críticas de alguns candidatos às medidas de isolamento impostas pela prefeitura e pelo governo do estado.

    “Isso é preocupante, porque nós, como profissionais de saúde, acreditamos que seja importante que esses locais sejam fechados”, afirma ela, que acha que, mesmo com a crise do coronavírus, a saúde aparece pouco na lista de prioridades.

    Para ela, também falta conhecimento sobre o que é o SUS. “É preciso incentivar a população a defender o serviço público. Não é um favor, mas uma conquista”, diz.
    Aline critica os políticos por priorizar a construção de novos hospitais e não a melhora do atendimento básico.

    “A maioria dos problemas de saúde podem ser resolvidos com atenção primária. Então os prefeitos deveriam discutir a prevenção e não a doença. Mas, via de regra, eles estão preocupados em fazer novos hospitais e não em fortalecer as unidades básicas de saúde. Não é o quanto ele vai gastar, mas onde vai gastar”, diz.

    A baiana Telma, que ajudou a colocar de pé o primeiro posto de saúde da cidade de Pilão Arcado, no interior do estado, acho que os cofres públicos têm dinheiro, mas que ele é mal administrado.

    “A campanha virou um circo. Você olha e tem vontade não sei se de rir ou de chorar. O foco tinha que ser no agente de saúde comunitário, para ensinar o povo até a questão nutricional, comer melhor, porque isso vai impactar na pressão alta, no diabetes e diminuir as pessoas que vão chegar com doenças graves”, diz.

    Folha de São Paulo

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