SINDFESP - SINDICATO DOS FUNCIONÁRIOS DA FAZENDA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
FILIE-SE
 

Política com religião, a idiotia do perdão (09/10/2012)

  • Enquanto a mídia contava o quase século de condenação dado para Lindemberg, o matador da Eloá, Gilberto Carvalho, Ministro Secretário-Geral da Presidência da República, “ajoelhava-se” diante de pastores neopentecostais no Congresso Nacional e, em nome do Governo Brasileiro, suplicava “perdão”

    O gosto pelas condenações monumentais tem posto a mídia e o povo numa condição de idiotia. Enquanto o Governo erra brutalmente pondo-se de joelhos pr’um grupo de 74 Deputados e 8 Senadores, vão os jornais, televisões e rádios contando 31 anos para os Nardoni, 39 para a Ritchthofen, e sangue, mais sangue e circo e sangue no circo.

    A pretexto de religião, aborto, combate à homofobia, ao preconceito e à violência, e questões republicanas servem como álibis para negociações e barganhas no Parlamento. O aborto é a quarta maior causa de morte materna e a quinta maior causa de internação junto ao SUS. Você sabia? Pois é, não se trata de ser a favor ou contra, o que não se pode é impedir que uma questão de saúde pública seja posta na bandeja das barganhas políticas em vista de um exército de fiéis que, entre os evangélicos neopentecostais, somam 40 milhões de votos.

    Magno Malta, um Senador do Espírito Santo e Cantor Gospel – não sei qual a ordem adequada – foi à Tribuna do Senado e chamou o Secretário-Geral da Presidência da República Federativa do Brasil de “safado”. Termos “próprios” para um Senador da República? Não lhes parece? Pois o “ex-safado” atravessou a Praça dos Três Poderes e “ajoelhado”, pela voz dos “pastores-políticos”, foi perdoado. A mistura de política e religião, a Constituição não perdoa.

    Não leia a bíblia, leia a Constituição. O Estado brasileiro é laico e política e religião não se misturam; é conquista republicana dos brasileiros de todas as religiões. Nos seus templos, em casa, na rua, leiam a Bíblia, o Alcorão, o Talmude, etc.; professem a crença que quiserem, a Constituição dos brasileiros lhes garante. Não queres ter religião? Não a tenha; a Constituição te dá o direito humano fundamental de ser livre e não tê-la.

    Contudo, a disputa pelo poder, os esforços para a construção e manutenção de certa hegemonia política, botam no trombone o que de mais nojento existe em termos de realpolitik: a genuflexão, a fala fácil, a promessa em vão, e os perdões de ocasião dirigidos à terceira maior bancada com assento no Congresso em vista dos seus quase 90 votos. Neste regime presidencialista de coalizão orçamentária o PT pôs-se de cócoras subordinando-se aos “pastores-políticos”  e submetendo o País a um perigo sem precedentes na nossa existência republicana: misturou política com religião. O resultado desta química, a história mostra.

    “Idiótes” era como Péricles (495-429 a.c.) classificava os cidadãos atenienses que não se ocupavam ou preocupavam com as causas e assuntos da cidade; viviam ensimesmados como homens privados, opostos, pois, aos homens públicos. É assim que vamos nós, idiotas desinteressados pelo “perdão” pedido pelo Estado a uma facção religiosa com assentos congressuais suficientes para fazer barganhas políticas em nome da religião.

    O pragmatismo pinta-se com as tonalidades da loucura política; para fazer Haddad Prefeito de São Paulo, parece que o PT está disposto a, sem trocadilhos, vender a alma; o Senador e cantor Gospel Magno Malta sabe disso, e disse: “se juntarmos católicos e evangélicos de São Paulo, Haddad não tem a menor chance”. Ora, a união de religião e política pode dar no que já deu!

    Um país de bases democráticas e, pelo menos até agora, de profunda tolerância religiosa, não pode, sequer, correr o risco de imiscuir religião com política. E a mídia, nesta quadra, o que faz? Conta os anos das prisões e trombeteia as barbáries dos humanos como nós! Somos “idiótes”.

    O ato do Ministro de Estado é imperdoável e inaceitável! Quiçá não seja o começo, pois, não é a primeira vez que a Presidenta cede às pressões políticas de índole (pretensamente) religiosa, vide a mudança na linha da campanha presidencial quando abandonou bandeiras históricas do seu partido para, assim, cabalar, votos neopentecostais.

    Já que sou ateu posso afirmar: Deus nos livre e guarde; vade-retro, xô!

    Fonte: Ricardo Giuliani Neto é advogado em Porto Alegre, mestre e doutor em direito e professor de Teoria Geral do Direito na Universidade do Vale do Rio dos Sinos

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